A brusone do trigo pode causar redução no peso das espigas, comprometendo severamente a produtividade e a qualidade dos grãos. Trata-se da doença de maior impacto econômico na triticultura brasileira, com registros expressivos nas regiões produtoras do Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Goiás, Minas Gerais e Distrito Federal. . 

O impacto econômico da brusone é agravado pela dificuldade de controle, já que a ação dos fungicidas é limitada quando usados de forma isolada e o momento de aplicação é determinante para o resultado. Neste artigo, serão detalhados os sintomas característicos da brusone, as diferenças em relação à giberela, as condições que favorecem a doença, os mecanismos de dano e as estratégias de manejo integrado. 

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O que é a brusone do trigo e qual agente causa a doença 

A brusone do trigo é uma doença causada pelo fungo Pyricularia oryzae (teleomorfo Magnaporthe oryzae), agente de ciclo policíclico que afeta principalmente as espigas durante o período de espigamento e floração. O patógeno sobrevive em resíduos vegetais infectados e em hospedeiros alternativos, servindo como fonte de inóculo primário para as safras seguintes. 

No Brasil, a brusone foi registrada pela primeira vez na década de 1980 e, desde então, tornou-se endêmica em áreas de clima quente e úmido. A doença afeta principalmente o trigo, mas também pode acometer outros cereais de inverno, como cevada e aveia, em regiões com condições climáticas favoráveis. 

Sintomas visuais: reconhecendo a brusone do trigo no campo 

O diagnóstico preciso da brusone é fundamental para o manejo assertivo. Os sintomas se manifestam em diferentes partes da planta: 

  • Espiga: o sintoma mais característico é o branqueamento total e contínuo da espiga a partir do ponto de infecção. Normalmente, a parte acima do ponto infectado fica branca, enquanto a parte inferior permanece verde. 
  • Folhas: lesões elípticas com margens marrom-escuras e centro acinzentado, podendo evoluir para grandes necroses que comprometem a fotossíntese. 
  • Grãos: os grãos das espigas afetadas apresentam-se menores, deformados, enrugados e com baixo peso hectolítrico, resultando em redução direta da produtividade e qualidade industrial. 

A identificação correta dos sintomas é essencial para evitar confusões com outras doenças e direcionar o manejo de forma assertiva. 

Três espigas de trigo colhidas, lado a lado sobre fundo claro, mostrando aristas e grãos."
Três espigas de trigo colhidas, lado a lado sobre fundo claro, mostrando aristas e grãos.”

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Brusone versus giberela: diagnóstico diferencial para decisões assertivas 

A diferenciação entre brusone e giberela é crítica, pois as estratégias de controle são distintas. A tabela a seguir apresenta os critérios diagnósticos: 

Critério Brusone Giberela 
Sintoma na espiga Branqueamento contínuo a partir do ponto de infecção; parte superior fica branca Espiguetas esbranquiçadas intercaladas com espiguetas verdes (padrão descontínuo) 
Sinal diagnóstico Ponto escuro na ráquis; ausência de micélio rosado Micélio rosado nas espiguetas afetadas; possível presença de micotoxinas nos grãos 
Clima favorecedor Temperatura acima de 25°C com umidade relativa >90% e molhamento prolongado (>10 h) Temperatura entre 20°C e 25°C com precipitação por 48 h ou mais 
Fungicidas indicados Multissítios (mancozebe) isolados ou associados a triazóis; aplicação preventiva no emborrachamento  Triazóis e carboxamidas (SDHI); aplicação preventiva no espigamento/florescimento 

Clima e geografia: onde a brusone encontra terreno fértil 

A brusone do trigo é altamente dependente das condições ambientais para sua ocorrência e severidade. Três fatores climáticos são determinantes: 

  • Temperatura: entre 25°C e 28°C são ótimas para a esporulação, com risco crescente a partir de 20°C. 
  • Umidade: alta umidade relativa e períodos prolongados de molhamento foliar (10 horas ou mais) aumentam significativamente o risco de infecção. 
  • Chuvas: precipitações frequentes durante o espigamento e a floração criam ambiente propício para a dispersão e germinação dos esporos. 

Anos de El Niño são especialmente críticos para as regiões tritícolas tropicais, pois elevam a frequência de chuvas no Sul e mantêm temperaturas favoráveis ao patógeno durante o espigamento. 

Mecanismo de dano e impacto produtivo 

A brusone compromete o potencial produtivo do trigo ao afetar diretamente as espigas e os grãos. O patógeno invade os tecidos vasculares da espiga, interrompendo o transporte de fotoassimilados para os grãos em formação.  

Em situações de alta infestação, as perdas podem chegar a mais de 70% no peso das espiga, além de perdas expressivas no rendimento da lavoura, conforme dados da Embrapa Trigo

Manejo integrado: estratégias avançadas para mitigar a brusone do trigo 

O manejo integrado da brusone envolve a combinação de práticas culturais, escolha de cultivares, monitoramento climático e controle químico preventivo. Nenhuma estratégia isolada é suficiente para oferecer proteção adequada em anos de alta pressão. 

  • Janela de plantio: plantios tardios tendem a escapar das condições mais favoráveis à doença, reduzindo o risco de epidemia. 
  • Cultivares: a escolha de materiais com menor suscetibilidade é recomendável, embora não existam cultivares totalmente resistentes no Brasil. 
  • Rotação de culturas: a rotação com espécies não hospedeiras contribui para a redução do inóculo inicial, mas não elimina o risco, pois o patógeno pode sobreviver em resíduos vegetais. 
  • Monitoramento climático: o acompanhamento das condições de temperatura e umidade permite antecipar o risco e programar as aplicações de fungicidas. 

Controle químico: aplicação preventiva e limitações 

O controle químico da brusone do trigo deve ser realizado de forma preventiva, com aplicação de fungicidas no final do emborrachamento , antes do espigamento. Uma segunda aplicação pode ser necessária em condições de alta pressão, sendo sempre importante verificar a bula do produto para verificar o intervalo entre aplicações. 

Os principais grupos de fungicidas utilizados incluem triazóis e multissítios, como mancozebe e tebuconazol. No entanto, o controle químico na brusone tem limitações quando usado de forma isolada, o que reforça a importância das práticas culturais e do posicionamento correto da aplicação. 

Práticas recomendadas para o controle da brusone do trigo 

As orientações a seguir sintetizam o protocolo de manejo baseado nas melhores evidências disponíveis: 

  • Monitorar constantemente as condições climáticas, especialmente temperatura e umidade, durante o período de espigamento. 
  • Priorizar o plantio de cultivares menos suscetíveis à doença e ajustar a janela de semeadura para evitar períodos críticos de risco. 
  • Implementar a rotação de culturas para reduzir o inóculo inicial do patógeno. 
  • Programar a aplicação preventiva de fungicidas no final do emborrachamento, com possível reaplicação em situações de alta pressão. 
  • Utilizar doses e intervalos de aplicação conforme recomendação de bula do produto registrado. 

Diagnóstico preciso e manejo integrado: a chave para proteger o trigo 

A brusone do trigo representa um dos maiores desafios fitossanitários para a cultura, exigindo diagnóstico preciso, diferenciação em relação à giberela e combinação de múltiplas estratégias de controle. A aplicação preventiva de fungicidas, o monitoramento climático e a escolha adequada de cultivares são os pilares do manejo integrado. 

A tabela comparativa entre brusone e giberela apresentada neste artigo é uma ferramenta prática para o produtor e o agrônomo identificarem corretamente a doença no campo e direcionarem o manejo. 

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